quinta-feira, 26 de agosto de 2010


Nesse vigésimo sexto do mês acordei lembrando da minha infância. Ela e seu fim.
Há dezoito anos quase completos algo me atraía àquela televisão sem controle, desprevenido da porta pela qual a adolescência chegava. Exalei novos ares...
Os soldados confirmavam-se como não sendo mais os de plástico. Estes já sujavam os cantos da sala em meio a abrigo de aranhas. A partir daquele momento tudo o que fazia me sentir um herói; todas as frustrações e perdas da vida real, que sempre se transformavam nas conquistas galácticas ou em territórios vencidos, foram transferidos para outro compartimento de sonhos, agora definitivo.
A partir dali meu “falso” e bom mundo tornou-se ilusório. A vida, ao pé da letra. Meu ego, a mercê de alguém. Acho que foi a partir daquele dia que as coisas começaram a funcionar do jeito que eu não quis.
Quando criança, como uma criatura engenhosa, eu fugia das perdas. Fui assim e não me julgo por isso. Confesso-me e eximo-me de toda maldade fora da zona limítrofe de um ou outro “bilôco”.
Foi tudo por um simples descanso em virtude daquela infeliz tabuada surpresa e daquele coleguinha de trás alertando que era da casa dos nove, certo da minha fraqueza em conta tão alta.
Finalizo me recordando dos circos com a nostalgia das motocicletas em globos mortais. E assim foi a vida no ciclo que conto. Certamente, os trezentos e sessenta comuns a todo vivente. Não mais os brinquedos; Não mais seriados de super heróis. Porém algo se fez desigual. É que ainda tenho meu mundo de sonhos.

O que eu ganho com isso?!...

Nada!...

Mas é assim que eu esqueço esse mundo de perdas.

Parabéns, Sociedade Esportiva Palmeiras, pelos seus 96 anos!



"bilôco"- Termo usado para o local onde o jogador, em brincadeiras de bolinha de gude, tinha o domínio da aposta.

domingo, 22 de agosto de 2010




Quero falar um pouco do tempo. Ontem eu ouvi que é o melhor dos remédios. Corro contra os segundos que conto e têm passado velozes. Noto, dessa indesejável condição, que a inexistência das horas é fato sem os intervalos responsáveis por uma vida dinâmica.
Do vidro do carro a primeira cã branca. Nem dei tempo ao espelho. Qual foi o dia da cor?! Há de convir que não exista o louco a conseguir enxergar exatidões desse tipo. Das cãs não.
Eu concluí que o tempo é realmente o melhor, mas pra quem se dispõe a usá-lo, caso contrário ele te leva cheio de artifícios por um caminho sem volta.
É onde entra o papel de vilã da memória, e como cortesia do tempo perdido, a tortura te traz desde o ausente detalhe até aquele perdão que nunca externou os seus gestos. É o bastante para perceber o quão foi desatento com quem amou e o tamanho do vácuo que sempre deixou.
Quando descobre não foi suficiente, isso muito custou, não foi amoroso, justo, caridoso, verdadeiro, complicou, não cuidou, se perdeu, conservou o imprestável, empurrou com a barriga, foi sem ousadia ou apenas mais um, teve o padrão como um pai, só quis segurança, decisão foi de outros, opinião nunca teve, nunca ao menos gostou, o orgulho viveu, cresceu e morreu, e o tempo passou.