sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Lá eu estava fazendo o meu primeiro lanche do dia. Senti um leve toque no ombro. Olhei pra trás e, levado pela pressa, quase passei despercebido daquela mulher de coluna tão côncava ao ponto de tirar seu rosto do campo da minha visão. Baixei a cabeça a fim de perceber aquela senhora de oito ou mais décadas carregando um pacote de Eiffel nas mãos oferecendo-o em venda desprovida do lucro dos supermercados. Valia o custo do arroz puro do dia ou de parte do medicamento que o SUS provavelmente faltou.
Foi de cortar o coração. Naquele momento reportei-me a minha casa, para o lado esquerdo do corredor e direito da vida. Fui levado à privilegiada velhice da minha amada avó. O semblante da mesma revezava-se com o daquela senhora. Todo aquele contrário depositava sua agonia ali na minha frente com um olhar capaz de destruir o que até então era pronto para reclamar das futuras bobagens do dia.
Ela chegou repentinamente e com uma gagueira um tanto sem chão, pediu: “Meu filho! Me ajude comprando essa bolacha!”. “Meu filho?!” Naquele momento desejei ser a imagem do mundo para aquela senhora, onde ela pudesse externar todas as mágoas, rancores, infelicidades, fomes, ausências, solidões, enfim... Ao menos jogasse na minha cara aquela desgastante velhice. Eu me perguntava de onde vinha aquela capacidade tão carinhosa. Na mesma hora esvaziei minhas mãos da comida e repleto da vergonha de nós, “ricos”, tirei da carteira toda a quantia que era do lanche, pedi que ela colocasse aquele biscoito de volta na sua sacola para quem sabe um estúpido qualquer aceitar fazer o negócio que ela propunha. Eu precisava de um constrangimento a mais naquele momento.
Foi quando aquela mulher foi embora com passos bem lentos e carentes de uma bengala. Eu fui de uma lentidão ainda maior, remando contra a maré da vergonha que me assolava. Parei em frente ao caixa e disse: “Moça! Eu estou sem dinheiro aqui. Posso me dirigir ao banco mais próximo pra sacar? "
Eu sabia que tudo se resolveria facilmente e foi o que realmente aconteceu. A funcionária esperou e eu cumpri o prometido tomando logo depois meu rumo de volta, levando um final feliz para aquela situação provisória de falta. Já aquela anciã das bolachas foi embora levando o biscoito e alguns reais que já não davam prioridade ao direito da sobreviver, que é inerente a outros excluídos do mundo. O mais importante agora é o direito de sentir a dor daquela coluna tão sinuosa, daqueles ossos tão frágeis, do coração sofredor.
No caminho de volta roguei a Deus uma prece. Até tornou-se pecado. Desejei a morte daquela idosa em minha oração. A compaixão chegara a um estranho extremo naquele momento. A única coisa que passou pela minha razão foi a velhice daquela pobreza sofrida já suficientemente capaz de merecer as riquezas do céu.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

sábado, 2 de outubro de 2010

“Por que amar, se perder machuca tanto? Eu não tenho mais respostas: só a vida que eu vivi. Duas vezes nessa vida eu dei a escolha: como um garoto e como um homem.O garoto escolheu a segurança, o homem o sofrimento. A dor de então faz parte da felicidade de agora. Esse é o acordo.”
Anthony Hopkins, como Clive Staples Lewis – “Terra das Sombras”.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010


Nesse vigésimo sexto do mês acordei lembrando da minha infância. Ela e seu fim.
Há dezoito anos quase completos algo me atraía àquela televisão sem controle, desprevenido da porta pela qual a adolescência chegava. Exalei novos ares...
Os soldados confirmavam-se como não sendo mais os de plástico. Estes já sujavam os cantos da sala em meio a abrigo de aranhas. A partir daquele momento tudo o que fazia me sentir um herói; todas as frustrações e perdas da vida real, que sempre se transformavam nas conquistas galácticas ou em territórios vencidos, foram transferidos para outro compartimento de sonhos, agora definitivo.
A partir dali meu “falso” e bom mundo tornou-se ilusório. A vida, ao pé da letra. Meu ego, a mercê de alguém. Acho que foi a partir daquele dia que as coisas começaram a funcionar do jeito que eu não quis.
Quando criança, como uma criatura engenhosa, eu fugia das perdas. Fui assim e não me julgo por isso. Confesso-me e eximo-me de toda maldade fora da zona limítrofe de um ou outro “bilôco”.
Foi tudo por um simples descanso em virtude daquela infeliz tabuada surpresa e daquele coleguinha de trás alertando que era da casa dos nove, certo da minha fraqueza em conta tão alta.
Finalizo me recordando dos circos com a nostalgia das motocicletas em globos mortais. E assim foi a vida no ciclo que conto. Certamente, os trezentos e sessenta comuns a todo vivente. Não mais os brinquedos; Não mais seriados de super heróis. Porém algo se fez desigual. É que ainda tenho meu mundo de sonhos.

O que eu ganho com isso?!...

Nada!...

Mas é assim que eu esqueço esse mundo de perdas.

Parabéns, Sociedade Esportiva Palmeiras, pelos seus 96 anos!



"bilôco"- Termo usado para o local onde o jogador, em brincadeiras de bolinha de gude, tinha o domínio da aposta.

domingo, 22 de agosto de 2010




Quero falar um pouco do tempo. Ontem eu ouvi que é o melhor dos remédios. Corro contra os segundos que conto e têm passado velozes. Noto, dessa indesejável condição, que a inexistência das horas é fato sem os intervalos responsáveis por uma vida dinâmica.
Do vidro do carro a primeira cã branca. Nem dei tempo ao espelho. Qual foi o dia da cor?! Há de convir que não exista o louco a conseguir enxergar exatidões desse tipo. Das cãs não.
Eu concluí que o tempo é realmente o melhor, mas pra quem se dispõe a usá-lo, caso contrário ele te leva cheio de artifícios por um caminho sem volta.
É onde entra o papel de vilã da memória, e como cortesia do tempo perdido, a tortura te traz desde o ausente detalhe até aquele perdão que nunca externou os seus gestos. É o bastante para perceber o quão foi desatento com quem amou e o tamanho do vácuo que sempre deixou.
Quando descobre não foi suficiente, isso muito custou, não foi amoroso, justo, caridoso, verdadeiro, complicou, não cuidou, se perdeu, conservou o imprestável, empurrou com a barriga, foi sem ousadia ou apenas mais um, teve o padrão como um pai, só quis segurança, decisão foi de outros, opinião nunca teve, nunca ao menos gostou, o orgulho viveu, cresceu e morreu, e o tempo passou.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010


A única coisa
foi o cheiro do ventre;
O resto foi sobra
de maternidade infinita.
Foi o amor mais moreno
dos nove fora da casa.
Em redoma o protejo;
Tornou seguro o sobejo.
Tão precioso e rijo
mariano manto envolto,
resguarda um pedaço de mim.
Lembro a lamúria na rua;
Tive a folia negada;
Depois disso eu cresci.
Noto essência do alto.
Mãos vazias sem tudo.
Foi talento de mãe
a conter as vontades
sem voluntário certeiro
a confortá-las num sim.
Nada até mim veio brando;
Desistir é penoso;
Meus valores sem preço;
Continuo sonhando
com Autoramas na vida;
com os Castelos de Greiscol
E a reação garantida
é somente a minha.
Por isso o meu muito obrigado
pelo espaço sobrado.
Além de ser seu sobrinho,
vejo comigo essa sina
de ser também mais um filho.
E ninguém toque um dedo
nessa parte do enredo
pois só faltou uma coisa;
Faltou o cheiro do ventre.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Jamais consentirei que minha liberdade seja setenciada.
Transgrido regras para livrar os vestígios.
Não ouso escrever, mas revelar-me talvez.