Lá eu estava fazendo o meu primeiro lanche do dia. Senti um leve toque no ombro. Olhei pra trás e, levado pela pressa, quase passei despercebido daquela mulher de coluna tão côncava ao ponto de tirar seu rosto do campo da minha visão. Baixei a cabeça a fim de perceber aquela senhora de oito ou mais décadas carregando um pacote de Eiffel nas mãos oferecendo-o em venda desprovida do lucro dos supermercados. Valia o custo do arroz puro do dia ou de parte do medicamento que o SUS provavelmente faltou.
Foi de cortar o coração. Naquele momento reportei-me a minha casa, para o lado esquerdo do corredor e direito da vida. Fui levado à privilegiada velhice da minha amada avó. O semblante da mesma revezava-se com o daquela senhora. Todo aquele contrário depositava sua agonia ali na minha frente com um olhar capaz de destruir o que até então era pronto para reclamar das futuras bobagens do dia.
Ela chegou repentinamente e com uma gagueira um tanto sem chão, pediu: “Meu filho! Me ajude comprando essa bolacha!”. “Meu filho?!” Naquele momento desejei ser a imagem do mundo para aquela senhora, onde ela pudesse externar todas as mágoas, rancores, infelicidades, fomes, ausências, solidões, enfim... Ao menos jogasse na minha cara aquela desgastante velhice. Eu me perguntava de onde vinha aquela capacidade tão carinhosa. Na mesma hora esvaziei minhas mãos da comida e repleto da vergonha de nós, “ricos”, tirei da carteira toda a quantia que era do lanche, pedi que ela colocasse aquele biscoito de volta na sua sacola para quem sabe um estúpido qualquer aceitar fazer o negócio que ela propunha. Eu precisava de um constrangimento a mais naquele momento.
Foi quando aquela mulher foi embora com passos bem lentos e carentes de uma bengala. Eu fui de uma lentidão ainda maior, remando contra a maré da vergonha que me assolava. Parei em frente ao caixa e disse: “Moça! Eu estou sem dinheiro aqui. Posso me dirigir ao banco mais próximo pra sacar? "
Eu sabia que tudo se resolveria facilmente e foi o que realmente aconteceu. A funcionária esperou e eu cumpri o prometido tomando logo depois meu rumo de volta, levando um final feliz para aquela situação provisória de falta. Já aquela anciã das bolachas foi embora levando o biscoito e alguns reais que já não davam prioridade ao direito da sobreviver, que é inerente a outros excluídos do mundo. O mais importante agora é o direito de sentir a dor daquela coluna tão sinuosa, daqueles ossos tão frágeis, do coração sofredor.
No caminho de volta roguei a Deus uma prece. Até tornou-se pecado. Desejei a morte daquela idosa em minha oração. A compaixão chegara a um estranho extremo naquele momento. A única coisa que passou pela minha razão foi a velhice daquela pobreza sofrida já suficientemente capaz de merecer as riquezas do céu.
Foi de cortar o coração. Naquele momento reportei-me a minha casa, para o lado esquerdo do corredor e direito da vida. Fui levado à privilegiada velhice da minha amada avó. O semblante da mesma revezava-se com o daquela senhora. Todo aquele contrário depositava sua agonia ali na minha frente com um olhar capaz de destruir o que até então era pronto para reclamar das futuras bobagens do dia.
Ela chegou repentinamente e com uma gagueira um tanto sem chão, pediu: “Meu filho! Me ajude comprando essa bolacha!”. “Meu filho?!” Naquele momento desejei ser a imagem do mundo para aquela senhora, onde ela pudesse externar todas as mágoas, rancores, infelicidades, fomes, ausências, solidões, enfim... Ao menos jogasse na minha cara aquela desgastante velhice. Eu me perguntava de onde vinha aquela capacidade tão carinhosa. Na mesma hora esvaziei minhas mãos da comida e repleto da vergonha de nós, “ricos”, tirei da carteira toda a quantia que era do lanche, pedi que ela colocasse aquele biscoito de volta na sua sacola para quem sabe um estúpido qualquer aceitar fazer o negócio que ela propunha. Eu precisava de um constrangimento a mais naquele momento.
Foi quando aquela mulher foi embora com passos bem lentos e carentes de uma bengala. Eu fui de uma lentidão ainda maior, remando contra a maré da vergonha que me assolava. Parei em frente ao caixa e disse: “Moça! Eu estou sem dinheiro aqui. Posso me dirigir ao banco mais próximo pra sacar? "
Eu sabia que tudo se resolveria facilmente e foi o que realmente aconteceu. A funcionária esperou e eu cumpri o prometido tomando logo depois meu rumo de volta, levando um final feliz para aquela situação provisória de falta. Já aquela anciã das bolachas foi embora levando o biscoito e alguns reais que já não davam prioridade ao direito da sobreviver, que é inerente a outros excluídos do mundo. O mais importante agora é o direito de sentir a dor daquela coluna tão sinuosa, daqueles ossos tão frágeis, do coração sofredor.
No caminho de volta roguei a Deus uma prece. Até tornou-se pecado. Desejei a morte daquela idosa em minha oração. A compaixão chegara a um estranho extremo naquele momento. A única coisa que passou pela minha razão foi a velhice daquela pobreza sofrida já suficientemente capaz de merecer as riquezas do céu.