Hoje eu presenteei o melhor amigo do meu pai com uma bicicleta...Devo a esse amigo boa parte do que aprendi em relação à amizade nesse ano que finda. O ato de despojo foi uma forma de reconhecer, por meu pai, a companhia fiel, mas também foi um gesto revestido de uma lição, a qual se fez, na sua essência, uma mendicante a entoar minha vontade de ser melhor.
O início dessa amizade aliado à falta de noção de meu pai não desciam mais do que meio milímetro abaixo das amídalas. Naquela época eu parecia ter a razão de sentir tal intolerância, acobertada pelas madrugadas de sextas feiras, que eram sempre alvoroçadas pela voz atroadora desse estranho amigo, a trazer o carrego da feira e as longas gargalhadas de meu pai.
Aquilo, pra mim, não passava de um episódio típico de gente que não era boa da cabeça. Mas daquela possibilidade, hoje vinga apenas a verdade das gargalhadas e o novo incômodo causado por minha inteligência, que é de bem menor qualidade, diga-se de passagem, ao compará-la a daquele pobre e louco amigo.
Ele atende pelo nome de Tico. No momento em que lhe entreguei a bicicleta, o seu rosto não esboçava nada mais do que a simplicidade de quem não foi preparado para agradecer. Eu percebi nele a necessidade de querer fugir daquela situação, que parecia ensaiar uma troca, ou talvez um consolo pelo falecimento do corpo amigo.
Aquela espontaneidade recordou- me algumas cenas protagonizadas pelos dois, as quais retratavam muito bem esse estranho e bonito laço amical...
A primeira lembrança entrevia o dia em que estávamos fazendo minha mudança de volta, de Salvador para Aracaju. Uma semana antes, presenciei painho falando com Tico pelo telefone, pedindo pra que ele nos ajudasse na retirada dos móveis assim que chegássemos a nossa casa.
Passados sete dias, na viagem de volta, já saindo da linha verde, painho impaciente, lamentava por não ter conseguido contato com o seu amigo durante toda a semana e muito menos naquele momento. Pedi a ele que desencanasse, já que na minha cabeça, de uma forma escondida, se passava a idéia de que era inadmissível fazer trato com doido.
Foi como uma bofetada na minha cara ao principiar a rua onde moro. Tico estava encostado ao portão há duas horas, o tempo exato do nosso atraso, conversando alto e sozinho, enquanto escutava o jogo do Vasco da Gama em um rádio vermelho. Posteriormente, só o notei novamente no fim, junto a minha ausência de suor pelo corpo e o último alfinete acomodado no lar, depois de ter percebido que ele tivera assumido os maiores pesos da retirada.
A segunda lembrança me remeteu a outro dia, em que o meu pai tentava consertar algo no banheiro de casa mas não conseguia. Ele tratava aquele feito como um prodígio, uma vez que se apresentava tão complicado de se resolver, daqueles típicos imbróglios que a gente senta e lamenta: “Só se eu tivesse três braços!”. Já tomado pelo fracasso, resolveu ligar mais uma vez para o seu amigo fiel.
Meia hora depois, acredite, Tico chegou com dezenas de metros de um fio todo engenhoso, provocando uma admiração que eu nunca tinha visto sair do rosto meu pai. Tenho certeza que, pra meu velho, foi como se seu amigo tivesse aberto o mar vermelho pra ele passar.
Remato com a noite de cinco de agosto. Velávamos o corpo de meu pai quando rapidamente avistamos Tico paralisado em frente ao caixão, calado, permanecendo assim por alguns minutos. Alguém que o acompanhava, meio apressado, começou a lhe alertar que já era hora de voltar pra casa. No mesmo momento ele soltou a sua primeira e única frase daquele encontro, sorrindo: “Amigão, a gente vai conversar muito ainda!”. Olhei ao redor e todo o salão se emocionava.
Eu também me comovi, mas enquanto eu só me impressiono, os médicos vão atestando a sanidade da minha mente, que insiste em enfermar meu coração pela privação da eternidade.
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